Trouxe primeiro a pomba, animalzinho ferido na praça. Depois o carneiro encontrado no terreno baldio.
Sarada a asa, lavado o pêlo, era suave a convivência. Arrulhos, balidos, milho na palma, capim na mão, ruminar de três paciências. E mais doce ele ficava vivendo com a pomba, mais manso se fazia acordando com o carneiro.
Amavam-se nos cômodos estreitos. Cuidadoso porém de que a janela se mantivesse fechada evitando vôos, e fosse firme a coleira presa ao pé da mesa. A vida sem seus amigos parecia-lhe impossível. Menos nos fins de semana, quando viajava sem levá-los, medo de que fugissem e, na volta, saudoso, trazia do campo ramas e a pele tostada pelo sol.
Arrulhava a pomba, balia o carneiro. Mas, às vezes, voando entre a cômoda e o armário, a pomba parecia estonteada, a cabecinha batendo contra os vidros. E sem desgastar-se em raízes os dentes do carneiro se alongavam superando o focinho.
Foi com o agitar das ramas que ela se assustou? Ou com o alvoroço da chegada? Difícil dizer por que a fúria tomou-lhe as asas cravando o bico nos olhos e repetidas vezes afundando entre gritos e sangue. Mas é certo que o cheiro novo excitou o carneiro levando-o patear o corpo caído, sem que bastasse a carne entre seus dentes.
COLASANTI, Marina. A morada do ser. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2004. p.50-51.
O pequeno conto (?) chama a atenção pelo título. Sugere um ambiente urbano, precisamente um apartamento, no qual ocorrerão as ações principais. O texto parece ter como temática a solidão humana, escancarada na narrativa da relação entre o anônimo morador e os animais que adotou para viver nos cômodos estreitos de seu apartamento. A pomba e o carneiro, símbolos de paz e mansidão, são os animais aprisionados e cuidados pelo morador. Na ausência da palavra, os arrulhos e balidos pareciam suprir a comunicação necessária ao nosso personagem urbano. Na ficção, o instinto animal prevaleceu ao processo de domesticação e "humanização" dos bichos, acabando o homem vitimado por seus, antes dóceis, servos.
A autora constrói um texto em prosa que assemelha-se ao texto poético, utilizando frases curtas, vírgulas, conjunções e adjetivos, conferindo um ritmo cadenciado à leitura. O uso dos verbos, em sua maioria no pretérito imperfeito - mas também apresentando as formas infinitivo e gerúndio, parece conferir ao texto uma certa atemporalidade. Como numa fábula, porém sem a atribuição da fala ou poderes de consciência aos animais, parece agora que o contraste se dá pelo lugar/espaço que os animais passam a ocupar na vida de um humano. Desse modo, parece-me uma crítica a um viver esvaziado de comunicação e sentido.
1 comentários:
Oi, Tânia.
Gostei muito de suas reflexões sobre o texto da Colasanti.
Concordo que o conto tem muito da linguagem poética. As frases curtas lembram versos.
Talvez pudéssemos rastrear mais pistas, para comprovar as idéias de esvaziamento e falta de sentido.
Um abraço.
Claudio
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