É interessante conhecer um pouco mais o pensamento do linguista americano Steven Fischer, publicado nesta entrevista à VEJA, em 5 de abril de 2000. Será que ajudará um pouco a construir a resenha crítica do texto do livro História da Leitura?
Entrevista Steven Roger Fischer - Veja
Também segue a crítica de Carlos Vogt, linguista brasileiro, no Observatório da Imprensa (20/04/2000).
FLOR DO LÁCIO
Babel, esperanto, línguas e profecias
Carlos Vogt
Quem leu a entrevista do linguista americano Steven Fischer nas páginas amarelas da Veja (nº 1643, 5/4/00) deve ter ficado horrorizado com a perspectiva de desaparecimento do português, ali profetizada, em benefício de um mix lingüístico que hoje, com uma pitada de humor pejorativo, é chamado de portunhol.
Não sei se o futurologismo de Fischer terá os futuros que ele desenha, na cronologia que estabelece, na velocidade que preconiza, nas soluções de encaixe que vislumbra e na atmosfera blade runner que pinta.
Sei, contudo, que a sua visão segue a lógica inexorável do processo de globalização da economia mundial e de suas conseqüências culturais: à necessidade de homogeneizar mercados, estabilizando moedas, para a livre circulação do capital financeiro associa-se a harmonização de comportamentos e de padrões culturais de conduta social, criando, assim, condições objetivas para que as resistências nacionalistas ligadas ao sentimento forte de nacionalidade vão cedendo terreno a um sentimento crescente de fidelidade empresarial sem fronteiras.
O paradoxo que este sentimento produz é interessante, do ponto de vista lógico, e cruel, do ponto de vista social: quanto mais livre a circulação do capital mais ele se concentra em conglomerados internacionais que crescem e se agigantam pelas fusões de empresas que, em si mesmas, já são, em geral, grandes e concentradoras; socialmente, a perda do emprego e, pior, a impossibilidade de a ele retornar – o que dá magnitude ao fenômeno da exclusão – dá a nota de perversidade a esta sinfonia de encanto e desalento.
No olho do furacão globalizante, as tecnologias da informação funcionam como instrumento privilegiado do processo e como o próprio processo de instrumentalização do privilégio do acesso às informações, apresentado, no entanto, como a última maravilha democrática do liberalismo econômico e político.
Aqui, nesse ponto, é que se articula com o real a retórica de suas representações e apresentações, vale dizer a sua ideologia: o modelo é concentrador, mas a circulação dos interesses financeiros é livre e sem fronteiras; quanto mais o capital circula, mais ele se concentra e mais ele é exclusivo e excludente; quanto mais ele exclui, econômica e socialmente, mais ele cria a ilusão política da participação da cidadania e mais ele desenvolve a retórica da igualdade de oportunidades de acesso à informação, vale dizer, à verdadeira riqueza da nova economia. E essa riqueza, como todas na história, tem dono e os seus donos, como toda a história de donos, são ciosos de seu poder, de modo que o acesso democrático à informação não significa acesso à propriedade da informação, mas sim o direito inalienável ao consumo, cada vez mais sofisticado pelos meios sofisticados de sua circulação e disponibilização ao cidadão-consumidor.
Que homem se estará formando nesse processo é uma questão para o qual não se têm ainda respostas claras ou, pelo menos, convincentes. Que pessoa será esta, falante de uma espécie de língua-geral de comunicação – seja o portunhol profetizado pelo lingüista, na América Latina, seja o inglês, o próprio espanhol e o mandarim, como as grandes línguas remanescentes de todas as línguas, se as suas profecias para daqui a 300 anos estiverem certas –, que sociedade será esta constituída em bases culturais feitas quase que exclusivamente das exterioridades efêmeras e triviais do ser humano, de que humanidade se fará este indivíduo feito da ausência total de nacionalidades, que identidade se constituirá para o rosto plano do desenraizamento no espelho dessa fé mercante e consumista, são indagações, entre tantas outras, diante das quais até mesmo o esforço de sua formulação é sacrilégio.
A lógica da entrevista de Steven Fischer é exatamente a lógica do mundo globalizado: os cenários que ela estrutura e sustenta, desenhando-os com a promessa da igualdade comunicacional, numa viagem regressiva ao estado pré-babélico, dentro de todas as mitologias da salvação, não pode, por isso mesmo, prescindir do inferno e do purgatório que os emulam – no caso, o alto custo social desse processo – e nem evitar, do ponto de vista psicológico, o sentimento inexorável da perda progressiva de nossa identidade.
As línguas mudam, já mudaram e continuarão mudando, mas sem teleologia, sem finalismo, seja técnico, seja ideológico. A dinâmica de suas transformações jamais obedeceu a essa "esperantização" dos idiomas preconizada na entrevista. Se agora é possível apontar para esses futuros, é que a certeza de seus acertos está intimamente ligada à lógica da globalização e à homogeneização do mundo que engendra. Se, contudo, ela falhar, falham as profecias. O que não é de espantar, já que outras e boas não levaram a nada, a não ser ao fato de se constituirem em elementos indispensáveis para a etnografia e a compreensão das épocas em que foram formuladas.
7 comentários:
Oi, Tania.
Imprimi a entrevista, vou ler no fim de semana.
Quando puder, altere a configuração de feed do seu blog, assim todo mundo poderá ver em seus próprios blogs qualquer nova postagem que você inclua. O caminho é o seguinte:
Configuração
Site feed
Permitir feeds do blog: alterar para SINOPSE
Bjs,
Nos vemos amanhã! Quero saber como ficou a proposta do trabalho do Nico.
Ah, tenho uma nova postagem no meu blog, "O apanhador de desperdícios, parte II, a saga continua...".
Tânia, botei duas entrevistas do Peter Burke no meu blog (e otras cositas más). Acho que faz um belo contraponto ao apocalíptico Fischer. Dá uma chegada lá.
Meu comentário sobre a entrevista do Fischer: o entrevistado é interessante; o entrevistador é que é ruim. Leia as perguntas separadamente e verá que são perguntas muito óbvias. Que desperdício (mas esperar o quê da Veja, né?). Afora isso, são interessantes certos comentários do linguista. E alguns são categóricos, especialmente aquele sobre a fusão do espanhol e do português. Não gosto de exercícios de futurologia. Ainda que embasados, correm o risco de cairem por terra em questão de segundos. Há tempos ouço que o Rock morreu, a História morreu etc. É claro que Fischer não fala em morte do português, mas de trasformação. O que é óbvio: toda língua se transforma com o tempo e o uso. Mas ele justifica seu argumento a partir de uma visão histórica muito esquemática. Ao garantir essa fusão, Fischer, indiretamente, garante que a história caminhará de um jeito determinado, sem variações, sem retrocessos, sem saltos. É como se a vida de hoje fosse a fôrma da vida de amanhã. Como garantir isso? E se houver uma grande transformação, algo não previsto no roteiro histórico pensado por Fischer, que contrarie a visão rígica do autor? É isso.
Concordo, Fabrício... A entrevista é conduzida de modo a produzir binarismos. Não aproveitou a riqueza de informações que o Fischer poderia trazer para uma análise mais profunda sobre as transformações na linguagem. Não daria para esperar nada mais da VEJA.
Olá, Tânia!
Consegui entrar!!!
Como disse o comparsa Fabrício, ruinzinho esse entrevistador... Mas, acho que a entrevista e a crítica nos ajudam a ter um olhar mais agudo para o texto que comentaremos!Não acredito que tenhamos que hablar em Portunhol, penso que faremos importações de termos, como já fazemos...mas daí a "enterrar" nossa bela língua...
Abços
Claudia
Tania, botei um bagulho no meu blog. Você tem que ler! O texto é a sua cara!
Tania, botei um bagulho no meu blog. Você tem que ler! O texto é a sua cara!
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