Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
"Memórias inventadas - A Infância", Manoel de Barros. Ed. Planeta.
O poema de Manoel de Barros, em seu título, causa um estranhamento ao trazer a ideia de alguém que apanha desperdícios. Apanhar as sobras, aquilo que foi rejeitado por não possuir mais serventia neste mundo. O poeta mato-grossense, atualmente com 93 anos, mora no Pantanal, cenário que traz no poema. Se a natureza é desvalorizada e expoliada na sociedade tecnológica à serviço da produção, onde tudo ocorre numa velocidade regulada pelo tempo imposto pela produtividade e consumo, na poesia de Manoel de Barros são os desperdícios (representantes da simplicidade dos elementos naturais objetificados pelo homem) que ganham importância, força e vitalidade.
O uso das palavras constitui a temática do poema. De início o poeta anuncia que usa as palavras para compor silêncios. Nesta aparente contradição, o poeta parece se contrapor ao uso instituído da palavra, como dirá a seguir, palavras fatigadas de informar. Nos versos que seguem, as palavras que representam a natureza parecem ganhar vida própria (dou mais respeito às...tipo água pedra sapo), não mais representam, mas vivem de barriga no chão. Seria esta uma forma de subverter palavras fatigadas?
A intimidade do poeta com a natureza é reafirmada com o verso Entendo bem o sotaque das águas. Por meio de ideias antitéticas (respeito às coisas desimportantes; prezar insetos mais que aviões; velocidade das tartarugas mais que dos mísseis) o poeta opõe-se a um modo de viver da cidade, do mundo moderno. A seguir, afirma sua felicidade nos versos: Eu fui aparelhado/para gostar de passarinhos/ Tenho abundância de ser feliz por isso. O paradoxo aparece no verso Meu quintal é maior que o mundo, de onde se opõe a força do "local" frente ao "global". Não aceitando a lógica estabelecida pelas forças que organizam o mundo, o poeta fala Sou um apanhador de desperdícios:/Amo os restos/como as boas moscas. E continua, utilizando um neologismo, Porque eu não sou da informática:/eu sou da invencionática. A composição da palavra invencionática antecede o verso final Só uso a palavra para compor meus silêncios., proporcionando um exemplo de uso inventivo da palavra. Encerra o poema com a repetição do primeiro verso, acrescido do advérbio só, talvez para destacar um posicionamento: não abrir mão do prazer e da invenção no uso das palavras, tanto quanto de um jeito singular de ver e viver a vida.
2 comentários:
Tânia,
Parabéns pela análise.
Impecável.
Um beijo.
Claudio
Também gostei da sua análise, Tania. Não tinha percebido o "só", fundamental, do último verso do poema. Um beijo.
Postar um comentário