O AMOR FOI à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte, o amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fez piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava a consciência, e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas. Foi sepultado normalmente no fim do mundo, que é para lá da memória. Ninguém o localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima, e todos falavam nele, e ressuscitou ao terceiro dia.
DRUMMOND de ANDRADE Carlos. Contos plausíveis. Rio de Janeiro. Record, 1998. p.78
O texto Odisseia, por seu título, sugere logo de início, a ideia de uma longa jornada a ser percorrida por um personagem/ herói ao longo da narrativa. O tema é o amor e o autor parece escolher frases curtas, com ações que criam imagens dos acontecimentos na cabeça do leitor. Atribui a um substantivo abstrato uma forma humana, tornando-o um sujeito vivo, o que já causa um impacto no leitor. Parte de um estado inicial de prazer e liberdade para a ideia de enquadramento, quando já aparece a restrição ao beber. O amor enquadra-se à norma, mas continua a criar, inventando novas línguas. Sua vitalidade, força e despojamento passam a incomodar, levando os invejosos a torturá-lo e, em seguida, atirá-lo ao abismo. Resistindo e recompondo-se, novamente é torturado e fragmentado em mil partículas. Retorna ao mundo, de onde não saiu, na memória das pessoas, agora como um deus.
Além da temática do amor, parece-me que o autor fala da liberdade - com forte conotação política, denunciando as formas de violência e uso da força para a manutenção de uma certa ordem e poder instituído.
2 comentários:
Interessante! Será o "amor" a personificação do artista? Será o "amor" alguém livre e subversivo, que não se curva diante de barreiras e muros. E que por mais violentado que possa ser, sempre resiste. Me lembrou Che Guevara. "Hay que endureserse pero sin perder la ternura jamás". Convido você a ler meu texto. Abraços
Tânia,
gostei da maneira com que você articula aspectos dos planos do conteúdo e da expressão para comunicar ao leitor os sentidos que o texto suscita.
Beijos,
Mazé
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