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Sonetos - exercício de interpretação

~ ~
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Esse meu duro Gênio de vinganças!

(Camões)

A grande dor das cousas que passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre mil fotos que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e os amavios que se amavam,
descuidados de teu ver e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçavam
em orvalhada luz de amanhecer.

Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

(Carlos Drummond de Andrade - Farewell)

Erros meus, má fortuna, amor ardente é um soneto de Camões formado por duas partes: dois quartetos compostos por ordens de rimas abraçadas (abba, abba) e dois tercetos que usam as disposições cde,cde. Nos quartetos o poeta fala de uma vida trágica, na qual os seus erros, a má fortuna e o amor levam à desesperança, à condenação de um viver de modo triste. Reforçando a dor de uma existência cheia de desilusões e tormentos, os tercetos parecem mostrar que restam somente a mágoa e o sentimento de vingança. O passado parece encerrado no uso do pretérito perfeito (passei, errei, dei, vi, conjuraram, sobejaram, passaram, ensinaram), selando um destino imutável, reforçando a sensação de impotência diante dos fatos. O uso do presente (tenho) é ainda para reforçar a dor que sente mediante os acontecimentos do passado. Seria este um texto autobiográfico, estando o poeta ao final de sua vida, ou seria uma forma de expressão criada pelo autor (seguindo os modelos estéticos e as abordagens temáticas de sua época)?
A grande dor das cousas que passaram, soneto de Drummond, apresenta clara intertextualidade com o poema de Camões, sendo seu título retirado do segundo verso do segundo quarteto da obra portuguesa. O soneto diferencia-se em sua estrutura: os quartetos são compostos por ordens de rimas cruzadas e nos tercetos seguem duas rimas que se alternam (cdc, cdc). Ao contrário do poeta renascentista, Drummond parte da dor do passado (talvez numa reflexão sobre a passagem do tempo, que não volta, que tudo envelhece e leva à morte) para construir a ideia do amor que se eterniza e se alimenta através da memória, das imagens e lembranças. O uso dos verbos no pretérito imperfeito (esgarçavam, amavam, esvoaçavam), em contraposição ao também usado pretérito perfeito, dão a ideia de um sentimento vivido e que perdura no tempo. O uso da letra maiúscula somente no verso inicial de cada quarteto e do primeiro terceto parecem atribuir maior leveza e fluência à leitura do poema.
Não consigo, ainda, analisar os poemas em relação à métrica ou sonoridade/ musicalidade que suscitam.

1 comentários:

Pós-graduação em Língua Portuguesa - ISE Vera Cruz disse...

Oi, Tânia.
Gostei de sua leitura.
Você observou bem o uso dos tempos verbais em um e em outro texto.
Não creio que o texto de Camões seja autobiográfico. Trata-se de uma tópica "o desconcerto do mundo", muito comum nas leitas quinhentistas e seiscentistas.
Em relação à sonoridade e a métrica, pouco a pouco vamos explorando essas possibilidades. Os dois sonetos são decassílabos. O esquema do último terceto do Drummond é (ede).
Um abraço.
Claudio

 
© 2009 - Tania Uehara
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